Erro de avaliação?

NeurôniosUma junta médica surge agora dizendo que a menina Marcela de Jesus não era, na verdade, anencéfala.

Marcela de Jesus ficou conhecida no país por ter frustrado todas as expectativas negativas de sobrevivência em casos de anencefalia, ao permanecer teimosamente viva durante nada menos que 20 meses, vindo a morrer de causas aparentemente não relacionadas à anencefalia.

A declaração da junta médica vem em um importante momento em que debate-se no Supremo Tribunal Federal, se fetos anencéfalos poderão ou não ser descartados do ventre de suas mães.

O parecer da junta foi dado com base no fato de Marcela possuir “merocrania”, apresentando uma parte do cérebro, embora em outros casos, a definição de anencefalia não pressuponha a ausência total do cérebro.

Agora, cá entre nós, alguém honestamente pretende fazer desta declaração um argumento em favor do aborto dos fetos anencéfalos?

Afinal, se uma criança passa — como Marcela passou — todo um período de gestação sendo medicamente declarada anencéfala; sobrevive ainda outros vinte meses fora do ventre da mãe, na condição declarada de anencéfala e só depois de tudo isso aparece uma “junta médica” para dizer que ela não era, “desculpem-nos”, anencéfala, será que não é o suficiente para mostrar que, no mínimo, o diagnóstico de anencefalia é seriamente sujeito a enganos desse montante?

Cabe notar aqui a avaliação da Comissão Italiana de Ética, que reconheceu a possibilidade de crianças anencéfalas terem consciência.

Por outro lado, alguém poderia contra-argumentar: “Não era anencéfala, mas era igualzinha. O resultado seria o mesmo”.

Certo, então a pergunta que deve ser feita é: qual afinal o sentido dessa declaração? Só se for ampliar o escopo dos “beneficiários” da medida proposta.

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