Sam Harris e sua moral “científica”

Sam Harris é um dos evangelistas mais ativos do movimento assim chamado “novo-ateísmo”, ao lado de Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Em uma recente entrevista para a revista Veja ele diz que desacreditar  em Deus é um atalho para a felicidade e sugere esta felicidade como parâmetro para a definição de uma moralidade, segundo ele essencialmente “científica”, tendo essa felicidade como referencial de certo ou errado. Harris inicia a entrevista respondendo à pergunta:

“Por que a moralidade e as definições do bem e do mal não deveriam ser deixadas para a religião?”

Para ele é simples.

“O problema com relação à Religião é que ela dissocia as questões do bem e do mal da questão do bem-estar.”

Mais adiante ele diz:

“Se alguma coisa é má, é porque ela causa um grande e desnecessário sofrimento ou impede a felicidade das pessoas. Se alguma coisa é boa, é porque ela faz o contrário.”

Ou seja, para Harris, se causa bem-estar é bom, se causa mal-estar é mau. E a moralidade “científica” que ele sugere dependeria apenas de se identificar os estados neurológicos que causem bem-estar ou mal-estar, felicidade ou infelicidade. E assim, tudo está resolvido. Para todos.
Sim, a moral seria absoluta e mensurável, e a régua a ser usada é a da felicidade e bem-estar individual. Sam Harris, afirma com essa simples lógica ter eliminado o problema do relativismo moral.

Caberia perguntar a Harris, em que termos a felicidade como parâmetro de bem-estar poderia ser de fato um dado científico mensurável, e por que ela não é mais um referencial moral arbitrário ou, ainda, mera tautologia.
Mas, a título de dar andamento do raciocínio e fazendo uma suposição de que a felicidade individual pudesse de fato ser tomada como referência moral, ainda restaria a solucionar uma infinidade de conflitos práticos óbvios que o estudo da Moral enfrenta desde que o homem é homem, exemplificados em questões como: acordar cedo causa infelicidade para um número significativo de pessoas, mesmo que seja algo benéfico e que trará felicidade a essas pessoas a longo prazo; ou, o que dizer de alguém que satisfaz com algo que a outro possa trazer infelicidade, como a escravidão, aproveitando um exemplo dado pelo próprio Harris na entrevista.

Repetindo o que ocorre muitos outros argumentos oferecidos do neo-ateísmo, Harris contorna essas dificuldades evidentes com desdém, aproveitando-se de seus diplomas acadêmicos para embalar suas elucubrações meramente filosóficas no colorido papel de embrulho indevidamente rotulado de objetividade científica.

Harris, em reação a essa possível e pertinente indagação, parece preferir desprezar sumariamente todo pensamento filosófico que a humanidade produziu até hoje sobre a Moral em torno justamente desse tipo de impasses. Para ele, “…a maior parte das discussões filosóficas seculares são confusas e irrelevantes para as questões importantes na vida humana.”

A argumentação de Sam Harris chega a ser de uma ingenuidade espantosa, e ficamos a indagar do porquê que tamanha superficialidade ganhar tal espaço na mídia mainstream.

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4 comentários sobre “Sam Harris e sua moral “científica”

  1. O artigo trata exatamente da entrevista, dos argumentos apresentados nela pelo próprio autor, portanto, não faz sentido criticar o fato de ter me baseado nela.

    Quanto a acusação de superficialidade, eu acho ela própria superficial, uma vez está claro que meu comentário se refere e se restringe ao assunto “entrevista”, algo portanto nada ilegítimo que por si só justifique a insinuação precipitada e quase leviana de desonestidade.

  2. Tony;
    Gostaria que conhecesse o Humanismo Secular mais profundamente para que entendesse de onde vem a ética que conduz a vida dos ateus humanistas. Perceberá que felizmente nem os cristãos baseiam sua moral na bíblia, e que a ética e a moral podem e devem ser pensadas apartir do bem estar do homem, verá que analizando com suficiente profundidade os valores da compaixão, amor, altruísmo, caridade, compreensão, liberdade, properidade são todos plenamente compatíveis com a ética racional baseada na observação da natureza e da reflexão humanas pensando a felicidade do homem como finalidade da conduta moral. Homem como humanidade. O bem pessoal e o bem comum em perfeito equilíbrio.

  3. Impressiona-me a superficialidade com que chama seu objeto de estudo (a moral científica de Sam Harris) de superficial. E usar como referência uma entrevista da “Veja” de três págianas? Não seria uma atitude muito desonesta de sua parte? Eu, particularmente, não gosto da abordagem de Harris nem do termo “moral científica”. Prefiro o termo Ética Racional, uma vez que nem só a ciência no sentido poperiano é racionalidade. Mas a separação entre ética e religião é o fundamento para a paz, liberdade e cooperção. É fundamental separ o mundo real do sobrenatural para pensar o certo e o errado. E se a moral religiosa pudesse alcançar esses valores então já o teria feito pois dela foi a supremacia absoluta na história humana, e o resultado demonstra-se desastroso.

  4. Muito interessante esta questão. É de impressionar o que estes “intelectuais ateus” fazem para basear suas convicções; sem as condições cientificas torcem o que podem para desqualificar DEUS, chegando a ser ridiculo. Atribuir a questão moral à felicidade/bem-estar do indivíduo, é algo que gravita o campo da irracionalidade.

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