Compaixão ou sem paixão?

dinheirinhoNa última semana foi divulgado um estudo assinado pela Universidade da Califórnia em Berkley sugerindo uma relação entre compaixão, generosidade e o grau de religiosidade das pessoas.

A partir de três testes, os pesquisadores concluíram que pessoas menos religiosas são mais propensas a ser mais generosas quando movidas por compaixão do que as religiosas, sendo compaixão aí definida como o sentimento despertado pelo sofrimento alheio.

Segundo diz Robb Willer, co-autor do estudo “a pesquisa sugere que embora pessoas menos religiosas tendam a ser vistas com menos confiança nos EUA, ao sentirem compaixão elas podem na verdade ser mais inclinadas a ajudar seus concidadãos do que pessoas mais religiosas”.

Na matéria divulgada em português o título foi taxativo: “ateus ou agnósticos tendem a agir mais por compaixão do que os mais religiosos”.

Mas será que é mesmo esta a conclusão que o estudo nos permite chegar? Eu desconfio que não.

Observando os testes realizados, é possível perceber que todos eles são baseados em reações de impulso a um determinado estímulo, seja este uma frase, uma situação, uma imagem. Em dois dos testes a resposta a tais estímulos envolvia a doação de dinheiro.
Daí, observou-se que,  sob estes estímulos, as pessoas não religiosas doavam com mais facilidade do que as religiosas.

A própria pesquisadora líder do estudo, Laura Saslow, declarou que sua inspiração para a pesquisa surgiu quando um amigo altruísta e não religioso lamentou que só após ver o vídeo de uma mulher sendo salva dos escombros é que ele decidiu doar para os esforços de recuperação do terremoto do Haiti e não por uma compreensão lógica da necessidade existente.

Desta forma, o que o estudo realmente evidencia é simplesmente que os gestos de compaixão de pessoas não religiosas são motivados por impulsos externos que geram reações emotivas momentâneas, enquanto as mais religiosas são menos suscetíveis a isto e associam atos de compaixão a iniciativas mais refletidas.
A doação de dinheiro, por sua vez, fundamental nos testes empregados, não raramente, está relacionada a motivações impulsivas de desencargo de consciência e, por isso, dificilmente pode ser vista como um referencial confiável de real generosidade e caridade.
Além disso, o estudo deixa a desejar ao não dizer nada sobre as iniciativas de caridade de médio e longo prazo, onde são exigidos maiores esforços de disponibilidade de tempo, recursos e desapego pessoal.

Por tudo isso, este estudo deveria ser visto com reservas e celebração contida por aqueles que pretendam usá-lo como um atestado de superioridade dos não religiosos em relação ao religiosos, ou como uma confirmação para aqueles que consideram a religião um entrave a mais para a prática do bem.

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