Ensinando de casa

lapis com nóEm 2010, os pais foram multados por descumprirem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A acusação era de negarem “educação” aos filhos.

Em 2012, a despeito dos empecilhos colocados juridicamente pelo Estado – o mesmo que é incapaz de oferecer ensino público de qualidade – os pais comemoram vários prêmios conquistados pelos dois garotos em vários concursos – 30 mil reais em dinheiro só neste ano – e uma viagem para a Califórnia em agosto, resultado de uma vitória em disputa com mais 7 mil competidores, universitários.

O que na verdade os pais fizeram foi retirar os filhos da escola regular para oferecerem a eles o chamado homeschooling, ou simplesmente, ensino em casa. Insatisfeitos com a qualidade do ensino regular e fortemente influenciada pela convicção de cultivar padrões morais mais próximos da Bíblia, a decisão da família foi tomada em 2005, quando os filhos estavam na 5ª e 6ª série.

Por não ser previsto pela legislação brasileira, a iniciativa dos pais – o casal mineiro Cléber e Bernadete Nunes – foi enquadrada como “crime de abandono intelectual” após denúncia de um vizinho ao Conselho Tutelar. Os pais tiveram que encarar dois processos e foram condenados a pagar uma multa, numa história bem relatada por veículos de mídia. Os filhos, por sua vez, foram obrigados a enfrentar baterias de testes para provar que não estavam defasados nos estudos. Saíram-se bem em todos, apesar de críticas sobre o conteúdo das provas extrapolar o currículo normal oferecido nas escolas.

A despeito do nó que os resultados positivos provocaram na lógica do sistema educacional brasileiro, ainda há pedagogos que discordam do método e não o recomendam, acreditando que “se trata de uma opção por demais radical e que não substitui a escola regular, por pior que esta possa ser”. Em geral, as críticas negativas são pautadas na noção de que a escola deve não apenas ensinar, mas também socializar, ensinando o convívio com as diferenças, o que não aconteceria em casa. Tal argumentação, porém, é facilmente refutável, uma vez que esta socialização pode ocorrer em vários outros grupos e atividades. Estar fora da escola não implica em viver em uma redoma. Além disso, a julgar pelas notícias que diariamente são divulgadas em relação ao comportamento de alunos por todo o país, situações de violência, drogas, doutrinamento político, “bullying” e outros riscos e o descontrole dos educadores diante de tudo isso é de se questionar o tipo de socialização que as escolas andam a oferecer por aí.

Por outro lado, vários educadores já venceram o preconceito e não só aceitam a validade desta modalidade de ensino, como também nela reconhecem vantagens, como mostra a matéria do Estadão. O Ministério da Educação, por sua vez, absteve-se de opinar, dizendo que o assunto “diz respeito a uma questão jurídica/legal”, ainda de acordo com a mesma matéria.

De qualquer modo, o caso irá ficar registrado como modelo de sucesso e precendente positivo para outros pais que ousarem seguir no interessante desafio de ensinar seus filhos em casa. E, quem sabe, também venha a interessar ao Ministério da Educação, aparentemente mais  preocupado ultimamente com iniciativas de engajamento ideológico do que com soluções alternativas para o tão degradado e insuficiente ensino público nacional.

 

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2 comentários sobre “Ensinando de casa

  1. Verdade Irani, não é pra qualquer um. Tem que haver um comprometimento enorme, além de preparo e até um ambiente adequado. Mas o que é importante é que este assunto possa ser devidamente discutido, para que aquelas famílias dispostas a encarar a empreitada possam faze-lo livremente e sem a pressão de um estado ineficiente e sem moral sobre elas.

  2. HF, ensinar em casa, para nós cristãos, é um sonho, não é mesmo?
    Mas agora que tenho filhos crescidos, de acordo com minha experiência, posso dizer o seguinte: Acho que é algo maravilho para famílias SUPER! Ou seja, famílias super bem estruturadas, super equilibradas, super bem preparadas, super disciplinadas e super determinadas.
    Atualmente, os pais mal tem paciência para ficar com os filhos nos finais de semana, e acho que não estou falando de algo muito longe da nossa realidade; e também, há de se ter um preparo muito grande, ser quase um gênio ou um autodidata para conseguir dominar as matérias e fazer sozinho o que muitos professores fazem.
    Conhecemos muito de perto, não sei se você se lembra, pessoas que tentaram seguir essa linha e desistiram muito cedo, eu mesma fui uma delas, pois se tornou uma missão impossível para mim. Pude perceber pela matéria, que pai e mãe estavam engajados no mesmo propósito, e hoje em dia, é difícil os dois estarem em casa em período integral, (é difícil até mesmo uma mãe estar), e para dar conta de tudo sozinha é uma arte.
    Eu fracassei, mas aos que conseguiram eu tiro o chapéu, são dignos de admiração e respeito, porque não é uma tarefa fácil e também não é para qualquer um. 
    Abração!

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