O Dono da TV

TV refém

A mais nova tentativa de controle governamental sobre a opinião pública desta vez diz respeito à televisão.

Este mesmo governo que já tentou cercear a imprensa, que faz vista grossa a conteúdo ideológico em livros escolares e que ainda não desistiu de promover a sexualização infantil precoce sob o rótulo de ‘tolerância’, agora pretende proibir que as emissoras de TV repassem espaço em sua grade de programação a terceiros, o chamado “aluguel de horário”.

Se já não bastasse a excessiva e, em tempos digitais, cada vez mais questionável centralização do controle de distribuição das concessões de radiodifusão por parte do poder público, que ao longo da história deste país transformou tais concessões em moeda política, o governo agora mostra-se insatisfeito com a falta de controle sobre aquilo que é veiculado pelas emissoras de TV e deseja instituir um novo “marco regulatório” das comunicações, sob o pretexto, correto, de que o atual, de 1962 está obsoleto.

Eu me pergunto o que, na televisão, deve ser definido como “aluguel de horário”?  À parte o tempo de veiculação, o nome que se dá à inserção e a forma de contrato entre as partes, qual a diferença entre um comercial de 30 segundos e um programa de vendas de meia hora? Ambos estão, alugando o espaço da emissora para vender. O governo proibiria também os comerciais, ou os deixaria de fora com base em alguma cláusula de tempo mínimo, formato ou natureza da informação veiculada? Como fazer isso sem exercer algum tipo de arbitrariedade?

De qualquer modo, dois grupos de destacariam de imediato dentre os mais afetados caso a medida entre em vigor: os programas de televendas e os evangélicos, este último sem dúvida em uma escala muito maior. Não é de se espantar, portanto, que representantes deste segmento tenham encarado a proposta como um ataque especificamente dirigido e já tenham se apressado em protestar recriminando a possibilidade desta mudança vir a acontecer.

Do lado oposto, dois argumentos principais parecem embasar os favoráveis à medida: a qualidade dos programas da televisão brasileira e o excesso de espaço que os programas evangélicos adquiriram nos últimos anos.

Quanto ao primeiro argumento, é fácil observar que a qualidade dos programas nada tem a ver com o tipo de pessoa que o produz ou com quem paga pelo horário em que é veiculado. A lista dos programas de qualidade duvidosa produzido pelas próprias emissoras é interminável e nada nesta medida de controle nos permite acreditar que o lixo televisivo venha a ser suprimido com essa medida. Pelo contrário, as emissoras seriam forçadas a preencher a grade vazia com mais programas sem muitas vezes terem condições de investir, o que não impediria programas de produção e qualidade duvidosos.

O outro argumento, mais imediatista e superficial ainda, é da crítica aos programas evangélicos. Neste caso – sem entrarmos no mérito do conteúdo destes programas – o discurso se baseia na repressão ideológica descarada contra o conteúdo que é oferecido por eles. Se há abusos, exageros ou enganos promovidos por estes programas, deveriam ser resolvidos pela legislação vigente no país, preservando-se sempre o princípio constitucional da liberdade de expressão. Fora isso, no que diz respeito a conteúdo, porém, o que neste caso os defensores deste argumento estão defendendo não seria nada diferente de querer proibir uma loja de vender um disco ruim. Como não se pode impedir alguém de gravar um disco ruim e como não se pode estabelecer judicialmente que um disco é ruim, visto que a definição envolve subjetividade, que se proíba a loja de vendê-lo.

As pessoas que celebram a possibilidade desta medida se concretizar, motivadas por suas aversões pessoais contra evangélicos, contra o lixo da TV ou mesmo contra o excesso de programas de televendas, deveriam deixar um pouco de lado a efusividade imediatista proporcionada pelo momento e tentar ampliar o campo de visão sobre o que isto pode representar a médio e longo prazo, pois o  que se pode ter certeza de tudo isso é que, cercear um pouco mais a veiculação de programas de produção independente, é dar ao governo maior controle sobre aquilo que é distribuido pelos canais de comunicação e chega à casa das pessoas. Em outras palavras, à medida que toma para si, o governo está tirando do público o direito de escolher aquilo que irá assistir em suas tevês.

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2 comentários sobre “O Dono da TV

  1. E a ditadura ideológica aos poucos vai se instalando…
    Qdo o povo cristão vai começar a entender que sentar e reclamar não elege presidente?
    A intenção é fazer calar a voz dos representantes do povo de Deus na mídia, aqueles que ainda tem coragem para se opor ao sistema, e mesmo assim, são criticados pelo seu próprio povo.
    De forma quase sutil, sob pretexto de programação de “qualidade” continuaremos à mercê do governo e da força da rede esgoto. A não ser que o povo de Deus acorde, e reaja, se conscientizando da força que tem para mudar o rumo das coisas, simplesmente não acessando o canal ou desligando a TV, continuaremos sendo alvo. Somos um gde número nesse país, porque será que para a maioria dos cristãos, sair da passividade e partir para uma reação prática é  uma missão quase impossível?

  2. Em um estado democrático voltado ao capitalismo, esta tentativa de cercear a liberdade das emissoras de venderem seu espaço é no mínimo absurda, interessante que se a preocupação fosse com a qualidade, o governo deveria também procurar PROIBIR a propaganda eleitoral, principalmente a gratuita, que além de não gerar nenhuma verba as empresas de comunicação são “SOFRÍVEIS”.  Fica claro e evidente que o interesse é o controle que nada mais é do que uma afronta a liberdade.

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