Bell’s Hells

brasa, calor e pouca luzRob Bell, um pregador americano que se tornou famoso em tempos recentes, virou assunto agora também no Brasil, ao ser entrevistado por André Petry nas páginas amarelas da Veja desta semana  (Edição de 28/11/2012), para divulgação de seu novo livro. O assunto que ele traz diz respeito ao universo da teologia cristã, mas que com um veículo de forte penetração, como é a Veja, passa a ter uma enorme visibilidade para ao público em geral. Sendo assim, algumas considerações são cabíveis e merecidas.

Bell, defende a idéia do Universalismo, a doutrina de que todos serão salvos no fim das contas e que não há um “inferno” no sentido tradicional da concepção cristã. Para isso, ele se escora nas falhas da igreja – que sabemos há 2 mil anos que existem e são muitas – em especial as falhas relacionadas à compaixão, para argumentar que há muita gente “boa”, mundo afora tão ou mais merecedora de ser salva do que muito cristão dentro das igrejas. Como resolver a questão, senão pela noção de que todo mundo (ou quase todo mundo, como veremos) será salvo no final?

A entrevista inicia com uma afirmação, destacada na legenda da foto de abertura, que já sugere o tom ambíguo, genérico e de indiscreto apelo sentimental do restante que está por vir. Bell afirma em tom de resignação: “Ninguém sabe o que acontece quando morremos. Não tem fotografia, não tem vídeo”.
Em termos. É verdade que não conhecemos detalhes do porvir, da vida eterna anunciada nas escrituras, porém, se Rob Bell deixar de lado as fotografias e vídeos como referencial de confiabilidade e se pautar simplesmente na Bíblia, é possível sim, a um cristão, ter uma noção suficientemente clara de que dois destinos possíveis são apontados para o homem: um junto a Deus e outro não (Ver Mateus cap. 25 e outras passagens).

Rob Bell sugere que o único inferno digno de ser discutido é aquele que cabe em sua própria definição, ou seja, a falta de alimento ou água e sofrimentos desta ordem. Para ele, de alguma forma, a existência deste inferno terreno, pelo qual sem dúvidas muitas pessoas passam, demonstra a inexistência de um inferno pós-morte. Ele afirma que, não por acaso, as pessoas que se preocupam demais com discussões sobre o inferno depois da morte são as que menos se interessam em discutir este inferno sobre a terra. Não sei se o livro chega a comprovar esta afirmação, mas na entrevista, ele fica muito longe disto.

Para Bell, qualquer pessoa que “tenha um coração”, só pode chegar a uma única conclusão moralmente cristã: a de que a salvação universal é “a melhor saída”. A sugestão é de que se alguém pensa diferente, só pode ser alguém desumano, insensível, egoísta.
Há um equívoco claro neste raciocínio apresentado por Bell. O fato de alguém desejar a salvação universal de toda a humanidade pode até ser o ideal acalentado por muitos ou mesmo todos os cristãos, como de fato eu acredito que seja, porém isso não determina que a realidade seja esta, de que todos irão se salvar no final. Também não significa que esta seja a única lógica possível de se conciliar com um “Deus que ama a todos”.

Apesar de defender a salvação universal, Bell não consegue livrar seu discurso da ambiguidade, por mais que consideremos que numa entrevista desse tipo os assuntos saiam truncados e misturados. Ao responder à pergunta sobre se alguém poderia recusar o paraíso, Bell responde que “você é livre para amar e para não amar”. Ele acha — ‘acha’ — que neste caso, talvez, a pessoa fique em um estado de “rejeição ou resistência que alguns chamam de inferno”.
Rob Bell não tem coragem de levar sua tese Universalista às últimas consequências. Quando, no final da entrevista, é perguntado se Hitler estaria no céu, Bell supôe que, neste caso, “Deus lhe deu o que ele queria”. Dizer que Hitler estaria no céu é uma afirmação muito forte, e que traz possíveis danos colaterais a qualquer um que tente fazê-la. Afinal, nem todos estão preparados para estar ao lado de Hitler no céu, e nem todos gostariam de ser salvos por um Deus que também salvasse Hitler.

Tudo bem, até o amor de Deus tem limites. Então vamos lá. Temos dessa forma, ao menos um exemplo em que o Universalismo de Bell não se aplica, em uma clara contradição do seu discurso. Mas, se Deus deu a Hitler “o que ele queria”, por que não poderá dar aos demais mortais, igualmente, aquilo “que eles querem”?
Se alguém recusar deliberadamente a cosmovisão que coloca Deus como um criador, soberano, justo, se tiver rejeitado toda noção que seja de uma necessidade de salvação do homem por Deus, tendo preferido viver de acordo com suas convicções e maldades, mesmo que numa escala muito menor do que a de Hitler, dar a essa pessoa um destino perto do Deus a quem rejeitou por toda a vida não seria um gesto de imposição por parte desse Deus?

Enfim, o assunto é extenso e muito poderia ser dito sobre o porquê do Universalismo ser inconsistente com a própria noção de amor e justiça relacionada ao Deus dos cristãos, longe de ser “a melhor saída”, mas isso já se distanciaria da proposta deste texto.

Em uma coisa, porém, concordo com Rob Bell. É quando ele diz que “o Cristianismo passa por uma revolução”. Só não sei se é para melhor.

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