Não se faz Copa SEM hospitais!

Sangue brasileiroDesde o início sempre me posicionei contra a realização desta Copa do Mundo de 2014 no Brasil, assim como das Olimpíadas no Rio, em 2016, por isso fico muito à vontade para falar. Não se trata de fazer o papel de advogado do diabo, o que o Ronaldo disse é apenas uma verdade: “Não se faz Copa com hospitais”.

Mas, de repente, bem ao gosto brasileiro, o ex-jogador virou o ícone, o judas que faltava para representar a – praticamente unânime, neste momento – indignação nacional diante dos gastos com a Copa do Mundo de futebol.

Mas, só um instante!

Estamos em 2013, o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo em 2007! Isso oficialmente, porque era candidatura única e, portanto, escolha certa.
Vale lembrar também, que houve pelo menos três anos entre o anúncio oficial e o efetivo início da maioria das obras, que como era de se esperar, atrasaram.

Durante todo esse tempo não se ouviu nenhum grande protesto contra a Copa no Brasil, salvo algum comentário esporádico, aqui e ali, de algum “chato reclamante”, de algum “recalcado da oposição ao governo”, de algum “pessimista”, de algum “invejoso” por não ter estádio novo para seu time.

Durante todo esse tempo não apareceu nenhuma autoridade de peso para dizer que não queria a Copa.

Houve, sim, quem apontasse a enormidade dos custos, a expectativa quase certa de superfaturamento das obras (nada que exija um vidente, aqui no Brasil) ou a justificada desconfiança de que a infra-estrutura urbana realmente recebesse algum investimento que perdurasse para depois do fim do torneio.

Mas é claro que ninguém iria se interpor seriamente ao lucrativo projeto de Copa do Mundo, para ficar depois de fora do incrível potencial comercial ou político do evento. Vamos lembrar que inicialmente nada menos do que 18 cidades disputavam as 12 vagas para sede dos jogos.

Durante esse tempo faltou alguém para cravar: “Não se faz Copa SEM hospitais!”. O próprio Ronaldo, no mesmo vídeo esclareceu: “Aí você tem que ver o que você quer”. Queriam a Copa? Tem que ter estádio.

De repente, o gigante acordou (acordou?), e descobriu que estavam organizando uma Copa em torno do berço esplêndido. Não gostou, mas a culpa não é do Ronaldo. Agora, com Copa ou sem Copa, os estádios estão aí, prontos e superfaturados. E os hospitais… bem, ficam para uma próxima, quem sabe, porque Jogos Olímpicos também não se fazem com hospitais.

Vamos ver se o gigante pula da cama ou se apenas afofa o travesseiro e se vira para o outro lado…

Em tempo:
Não há problema nenhum em se mudar de opinião. É uma iniciativa legítima, inteiramente válida e muito mais sensata do que permanecer sustentando um posicionamento equivocado por vaidade ou teimosia. Mas nesse caso, uma atitude de humildade e admissão do erro seria não apenas uma atitude nobre, mas também parte do processo de recuperação dos valores sociais em discussão.

 

Hamilton Furtado

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