Samaritanos e ateus

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Doré Bom SamaritanoÉ recorrente entre não poucos ateus a necessidade de provar que não precisam da religião para serem pessoas boas, éticas e preocupadas com o bem comum. Há, por um lado, um interesse em esvaziar a religião de qualquer importância prática, mas ao mesmo tempo, talvez tentem de algum modo combater um suposto estereótipo do ateu cruel e sem compaixão, que no meu entender reside muito mais no imaginário ateísta do que na realidade do dia-a-dia.

Nesta linha, vejo uma interessante matéria mostrando o envolvimento de alguns ateus e atividades de ação social, com entrevistas a alguns deles e, dentre vários comentários, um deles me chama atenção. Uma das entrevistadas comenta que, apesar de atéia, de vez em quando deixa até escapar um “…graças a deus”, para ilustrar o quanto é difícil ser ateu em uma cultura cristã.

De fato, viver numa cultura cristã sem ser influenciado por ela, não é nada fácil, basta ver a citação bíblica que abre a citada matéria, remetendo à conhecida parábola contada por Jesus, sobre o “Bom Samaritano” (Lucas, cap. 10).

Mas, aí fica a pergunta: até que ponto a solidariedade tb não é cultural? E se for, quanto a cultura cristã, a cultura religiosa, a cosmovisão teísta impregnada nesta cultura, afeta ou estimula o interesse pelo outro? Por outro lado, se não for, ela vem de onde? Se alguém disser que vem da genética, como impõe a visão de mundo naturalista, não há mérito nenhum nela. Afinal de contas, seria algo tão dotado de moralidade quanto o medo instintivo, a fome ou sede, ou qualquer necessidade fisiológica.

Ninguém duvida que um ateu possa ser comovido pelo drama alheio. Eu não tenho dúvida é algo que mexe com todos os ateus, caso contrário, eles seriam meros hipócritas ao questionar a existência de Deus em face da realidade do mal no mundo. Mas seria interessante avaliar o quesito solidariedade numa civilização absolutamente ateísta, sem nenhum resquício religioso em suas origens e fundamentos. Seria interessante descobrir o quanto a cosmovisão ateísta é capaz de justificar e explicar pelas suas próprias pernas essa peculiaridade do bicho homem.

Pena que não exista nenhuma cultura absolutamente ateísta para que possamos conferir…


Reparação

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David BryantImagine alguém ser solto de uma prisão após 38 anos. Para nossos padrões atuais é, no mínimo, metade de uma vida. Depois de quase 40 anos atrás das grades, acusado pelo estupro e assassinato de uma menina em 1975, David Bryant foi finalmente libertado da prisão nesta semana.

Seu caso foi reaberto após a solicitação da Centurion Ministries, uma agência que tem por objetivo dar apoio a pessoas condenadas injustamente. O pedido da Centurion foi acatado, as evidências da época foram reexaminadas sob as novas tecnologias de análise de DNA e consideradas pelo juiz que julgou o caso insuficientes para mantê-lo preso.

Bryant disse que gostaria de ir a uma igreja, e se ajoelhar em uma oração por seus pais, que nunca acreditaram nele. “Eu gostaria que eles estivessem aqui para que eu pudesse dizer a eles não fiz aquilo”, disse ele.

O caso de David Bryant está longe de ser exceção, como se pode ver no site da Centurion Ministries. Toda condenação injusta é lamentável, traumatizante, indesejável. Mas é ainda mais se for penalizada com um ato irreversível, como a morte.

Eu tenho duas objeções à pena de morte. Uma é que ela impede a possibilidade de um futuro arrependimento. Nem todo criminoso irá se arrepender, mas a pena de morte elimina de cara essa possibilidade. A outra objeção é justamente a que motiva casos como este, de David Bryant. A justiça humana é menos do que perfeita, portanto sempre estará sujeita a erros. Intencionais ou não.


Disputa desleal

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bracoO atleta de MMA, Matt Mitrione, foi suspenso pela organização em que atua, por protestar contra a atuação do atleta transexual Fallon Fox, que agora luta com competidoras do sexo feminino. Rudezas verbais à parte, Mitrione levantou a questão de que Fox não deixou de ser biologicamente um homem e sua disputa com mulheres é desleal.

“Ela não é ele. Ele é ele.  Ele é cromossomicamente um homem. Ele teve uma mudança de gênero, não teve uma mudança de sexo”, alegou Mitrione. Suas palavras foram consideradas ofensivas e inaceitáveis. “Homofóbicas”, ou melhor, transfóbicas.

Existe uma razão para haver distinção entre homens e mulheres em praticamente todas as modalidades esportivas. Homens e mulheres possuem diferenças óbvias de estatura média, massa muscular, gordura corporal ou força física.

No esporte, o uso da testosterona, hormônio com papel fundamental na diferenciação sexual, é passível de punição. Atletas mulheres pegas usando doping por testosterona são sistematicamente punidas, porque isto gera uma vantagem artificial sobre as demais competidoras. Mesmo numa competição como o MMA, que tolera o uso desta substância, doses exageradas também são punidas, ainda que sejam em homens lutando entre seus pares. Poderíamos até tentar imaginar o que aconteceria, num evento como os Jogos Olímpicos, por exemplo, caso o precedente fosse estendido a todas as modalidades esportivas.

Sendo assim, é no mínimo estranho, muito estranho, que alguém seja recriminado ao afirmar que há uma disputa desleal quando um homem enfrenta mulheres em uma competição de lutas. Não houve quaisquer críticas ao modo de vida ou decisões pessoais de Fox. Apenas uma análise dos fatos no contexto esportivo.
Quando pessoas, em nome do “politicamente correto”, passam a ser condenadas por dizerem o que é evidente, temos que parar e pensar se algo muito perverso não está acontecendo com nossa sociedade.

A melhor forma de se entender tudo isso, talvez seja considerando que este é apenas mais um desdobramento de uma briga ideológica bem maior, que ocorre fora dos ringues e octógonos. E na qual, pelo que podemos observar, o primeiro grande derrotado já de cara são as mulheres.