Pesquisa clínica ou pesquisa cínica?

A pesquisa da The Lancet, tratada inicialmente como a pá de cal no caixão da cloroquina/hidroxicloroquina, foi em poucos dias desacreditada, levando junto a já duvidosa reputação da OMS e a da própria revista que a publicou, que acabou tendo que remover a publicação.

Este episódio oferece ao público uma oportunidade rara de se questionar a eficácia, a seriedade e a credibilidade do processo de revisão por pares, ou “peer-review”, que é o mecanismo usado pelo meio acadêmico para chancelar a credibilidade das publicações científicas. Através da revisão por pares, toda produção acadêmica deveria supostamente ser conferida pela comunidade científica, para verificação dos métodos, dados e fontes usadas e validação das conclusões ANTES de qualquer pesquisa científica ser publicada.

Desta vez, ainda não está claro por que, esse procedimento de revisão por pares falhou. No caso desta pesquisa, os erros só foram expostos APÓS a publicação graças a uma investigação do jornal The Guardian, que acabou trazendo à luz as inconsistências envolvendo os dados usados na pesquisa, bem como sobre a empresa fornecedora desses dados e seu proprietário a partir de alertas e denúncias autônomas de outros pesquisadores.

Esse foi o fator motivador da retração da revista em relação à pesquisa.

De resto, vale sempre ressaltar o trabalho jornalístico na acepção mais positiva do termo da equipe do The Guardian. Se tivéssemos uma imprensa minimamente independente e séria no Brasil, muita coisa por aqui já poderia ter sido devidamente investigada, como por exemplo o estranho estudo de Manaus, que matou 11 pacientes em condições de procedimentos médicos e burocráticos ainda pouco esclarecidos.

Hamilton Furtado

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