Vamos ser práticos. A discussão toda se resume ao seguinte: se devemos ou não tornar possível que as mulheres frustradas com uma criança malformada em seu ventre eliminem essa criança de suas vidas sem que isso lhes acarrete algum incômodo social. Social, apenas, porque o que é moral para alguém jamais poderá ser estabelecido de forma judicial, embora a sugestão implícita seja a de que o que é legal também é moral.
O resto, meus caros, é conversa.
Assim, em função de se dar ao assunto uma aura mais nobre do que o simples e natural egoísmo permite, elabora-se todo um cenário onde uma discussão pouco lógica, mas muito rebuscada, travestida de preocupações humanísticas, começa a debater se uma criança sem cérebro está viva, ou não está viva, como se esta fosse a questão decisiva; ou sobre o valor utilitário da vida para a sociedade, como se a sociedade pudesse determinar desta forma o próprio valor da vida; ou se alguém fadado a morrer merece viver, ainda que por alguns instantes, como se a existência de qualquer pessoa fosse algo previsível.
Outro argumento recorrente é o de que para defender a vida como um fim em si mesmo seja preciso apelar para algum “dogma religioso”, como se qualquer descrente não pudesse chegar à mesma conclusão de que a vida tenha um valor em si mesma. O objetivo aí é o de tentar criar uma falsa dicotomia entre a fé e a razão, a religião e a ciência, tornando o valor intrínseco à vida uma questão discutível atrelada à subjetividade da fé de cada um e sem lastro na objetividade da ciência e da razão.
Mesmo sem passar pela mesma experiência, é perfeitamente possível compreender o drama para algumas mulheres e algumas famílias de ter que sustentar uma situação que não irá cumprir com as expectativas que deram origem a tal situação. Mas, nesse caso, os defensores da causa, deveriam simplesmente assumir que o que de fato está em discussão é meramente o fator do bem-estar individual, comprometido pelo não cumprimento da situação idealizada.
Para quem leu até aqui, vale dizer que a idéia não é condenar quem fez, ou pensa em fazer um aborto, seja de anencéfalo ou por outra razão qualquer, mas tentar levantar aquilo que é relevante e por uma série de razões fica obscurecido no discurso em torno do assunto.
Seria mais honesto se a questão fosse conduzida desta forma, em lugar de se tratar a sociedade simplesmente como um bando de gente sem cérebro. A transparência ao menos possibilitaria que cada um refletisse sobre seus reais motivos e interesses chamando para si a responsabilidade de seus atos e escolhas.


