Aborto de anencéfalos

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dandelion

Vamos ser práticos. A discussão toda se resume ao seguinte: se devemos ou não tornar possível que as mulheres frustradas com uma criança malformada em seu ventre eliminem essa criança de suas vidas sem que isso lhes acarrete algum incômodo social. Social, apenas, porque o que é moral para alguém jamais poderá ser estabelecido de forma judicial, embora a sugestão implícita seja a de que o que é legal também é moral.

O resto, meus caros, é conversa.

Assim, em função de se dar ao assunto uma aura mais nobre do que o simples e natural egoísmo permite, elabora-se todo um cenário onde uma discussão pouco lógica, mas muito rebuscada, travestida de preocupações humanísticas, começa a debater se uma criança sem cérebro está viva, ou não está viva, como se esta fosse a questão decisiva; ou sobre o valor utilitário da vida para a sociedade, como se a sociedade pudesse determinar desta forma o próprio valor da vida; ou se alguém fadado a morrer merece viver, ainda que por alguns instantes, como se a existência de qualquer pessoa fosse algo previsível.
Outro argumento recorrente é o de que para defender a vida como um fim em si mesmo seja preciso apelar para algum “dogma religioso”, como se qualquer descrente não pudesse chegar à mesma conclusão de que a vida tenha um valor em si mesma. O objetivo aí é o de tentar criar uma falsa dicotomia entre a fé e a razão, a religião e a ciência, tornando o valor intrínseco à vida uma questão discutível atrelada à subjetividade da fé de cada um e sem lastro na objetividade da ciência e da razão.

Mesmo sem passar pela mesma experiência, é perfeitamente possível compreender o drama para algumas mulheres e algumas famílias de ter que sustentar uma situação que não irá cumprir com as expectativas que deram origem a tal situação. Mas, nesse caso, os defensores da causa, deveriam simplesmente assumir que o que de fato está em discussão é meramente o fator do bem-estar individual, comprometido pelo não cumprimento da situação idealizada.

Para quem leu até aqui, vale dizer que a idéia não é condenar quem fez, ou pensa em fazer um aborto, seja de anencéfalo ou por outra razão qualquer, mas tentar levantar aquilo que é relevante e por uma série de razões fica obscurecido no discurso em torno do assunto.

Seria mais honesto se a questão fosse conduzida desta forma, em lugar de se tratar a sociedade simplesmente como um bando de gente sem cérebro. A transparência ao menos possibilitaria que cada um refletisse sobre seus reais motivos e interesses chamando para si a responsabilidade de seus atos e escolhas.


Flores de Marcela

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A singela história de Marcela de Jesus Ferreira e sua família. Marcela nasceu com anencefalia e sobreviveu 1 ano e 8 meses, a despeito de todas as expectativas contrárias.


Erro de avaliação?

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NeurôniosUma junta médica surge agora dizendo que a menina Marcela de Jesus não era, na verdade, anencéfala.

Marcela de Jesus ficou conhecida no país por ter frustrado todas as expectativas negativas de sobrevivência em casos de anencefalia, ao permanecer teimosamente viva durante nada menos que 20 meses, vindo a morrer de causas aparentemente não relacionadas à anencefalia.

A declaração da junta médica vem em um importante momento em que debate-se no Supremo Tribunal Federal, se fetos anencéfalos poderão ou não ser descartados do ventre de suas mães.

O parecer da junta foi dado com base no fato de Marcela possuir “merocrania”, apresentando uma parte do cérebro, embora em outros casos, a definição de anencefalia não pressuponha a ausência total do cérebro.

Agora, cá entre nós, alguém honestamente pretende fazer desta declaração um argumento em favor do aborto dos fetos anencéfalos?

Afinal, se uma criança passa — como Marcela passou — todo um período de gestação sendo medicamente declarada anencéfala; sobrevive ainda outros vinte meses fora do ventre da mãe, na condição declarada de anencéfala e só depois de tudo isso aparece uma “junta médica” para dizer que ela não era, “desculpem-nos”, anencéfala, será que não é o suficiente para mostrar que, no mínimo, o diagnóstico de anencefalia é seriamente sujeito a enganos desse montante?

Cabe notar aqui a avaliação da Comissão Italiana de Ética, que reconheceu a possibilidade de crianças anencéfalas terem consciência.

Por outro lado, alguém poderia contra-argumentar: “Não era anencéfala, mas era igualzinha. O resultado seria o mesmo”.

Certo, então a pergunta que deve ser feita é: qual afinal o sentido dessa declaração? Só se for ampliar o escopo dos “beneficiários” da medida proposta.