Disputa desleal

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bracoO atleta de MMA, Matt Mitrione, foi suspenso pela organização em que atua, por protestar contra a atuação do atleta transexual Fallon Fox, que agora luta com competidoras do sexo feminino. Rudezas verbais à parte, Mitrione levantou a questão de que Fox não deixou de ser biologicamente um homem e sua disputa com mulheres é desleal.

“Ela não é ele. Ele é ele.  Ele é cromossomicamente um homem. Ele teve uma mudança de gênero, não teve uma mudança de sexo”, alegou Mitrione. Suas palavras foram consideradas ofensivas e inaceitáveis. “Homofóbicas”, ou melhor, transfóbicas.

Existe uma razão para haver distinção entre homens e mulheres em praticamente todas as modalidades esportivas. Homens e mulheres possuem diferenças óbvias de estatura média, massa muscular, gordura corporal ou força física.

No esporte, o uso da testosterona, hormônio com papel fundamental na diferenciação sexual, é passível de punição. Atletas mulheres pegas usando doping por testosterona são sistematicamente punidas, porque isto gera uma vantagem artificial sobre as demais competidoras. Mesmo numa competição como o MMA, que tolera o uso desta substância, doses exageradas também são punidas, ainda que sejam em homens lutando entre seus pares. Poderíamos até tentar imaginar o que aconteceria, num evento como os Jogos Olímpicos, por exemplo, caso o precedente fosse estendido a todas as modalidades esportivas.

Sendo assim, é no mínimo estranho, muito estranho, que alguém seja recriminado ao afirmar que há uma disputa desleal quando um homem enfrenta mulheres em uma competição de lutas. Não houve quaisquer críticas ao modo de vida ou decisões pessoais de Fox. Apenas uma análise dos fatos no contexto esportivo.
Quando pessoas, em nome do “politicamente correto”, passam a ser condenadas por dizerem o que é evidente, temos que parar e pensar se algo muito perverso não está acontecendo com nossa sociedade.

A melhor forma de se entender tudo isso, talvez seja considerando que este é apenas mais um desdobramento de uma briga ideológica bem maior, que ocorre fora dos ringues e octógonos. E na qual, pelo que podemos observar, o primeiro grande derrotado já de cara são as mulheres.


Os valores e as escolhas

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Joubert de O. Sobrinho
Publicado no “Em Família 23″

Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência – Deuteronômio 30:19

Manchete do New York Post

Não consegui evitar um certo azedume nas entranhas após ler no jornal o artigo que comentava a escolha do fotógrafo profissional R. Umar Abassi. Ele preferiu gastar duas dezenas de segundos para fotografar um homem prestes a morrer nos trilhos do metrô de Nova York, ao invés de correr para tentar salvar sua vida. Foi uma escolha. Pior ainda: ele saiu da estação rapidamente para vender sua foto exclusiva ao jornal New York Post que, por sua vez, não fez por menos: publicou-a no dia seguinte na primeira página com o texto:

“Empurrado da plataforma do metro, este homem vai morrer”
“Condenado”

O fotógrafo informou às autoridades que usou o flash para alertar o condutor do vagão da presença do homem nos trilhos. Desde quando um flash em frente aos olhos facilita a visão? Alegar que o Código de Ética dos fotógrafos foi a razão do mesmo não ter agido em favor da salvação do coreano é bobagem. O código solicita que o fotografo evite interferir, influenciar ou alterar acontecimentos. Mas que acontecimentos? Mesmo quando a vida humana está em jogo? Por causa deste código muitos fotógrafos se esconderam por detrás das câmeras lavando as mãos feito Pilatos, enquanto poderiam tomar atitudes mais benignas. A mensagem que ele deixou foi clara: mais valem os milhares de dólares, a projeção de meu nome, um possível prêmio, que a vida de um cidadão qualquer. Ele escolheu a morte.

O valor da vida
Alegar esta regra antiética do código, contraria os princípios norteadores e responsáveis pela existência dos salva-vidas, dos bombeiros, dos policiais, dos médicos socorristas e agentes de saúde cuja prioridade é salvar vidas. Mas, o fotógrafo é “neutro”?!? Nem no mundo fantasioso dos quadrinhos há dúvida. Peter Parker, o Homem-Aranha, é fotógrafo, mas (analisando a natureza das histórias até aqui) seus sentidos-aranha indicam que mais vale salvar uma vida que fotografar sua morte!

O que está em jogo numa decisão como esta são os valores. Definindo com simplicidade, quando reconhecemos um valor nas coisas, inclinamo-nos a ter uma atitude favorável para com elas que se reflete nos nossos atos e escolhas. Se não valorizamos a vida nossas escolhas não darão prioridade a ela. O fotógrafo declaradamente agiu valorizando seu trabalho, sua profissão, seu ganho, ou seja lá o que for, mas não priorizou salvar a vida.
Expor a vida para salvar vidas

Em contrapartida, apresento-lhes uma grande heroína polonesa da Segunda Guerra Mundial que salvou 2.500 crianças judias do gueto de Varsóvia, falecida em 2008. Em março de 2007 a Polônia lhe prestou uma homenagem solene e seu nome foi proposto ao prêmio Nobel da Paz (ano em que escolheram Al Gore). No entanto, o memorial israelense do Holocausto, o Yad Vashem, lhe entregou em 1965 o título de Justo entre Nações, destinado aos não-judeus que salvaram judeus.

Irena Sandler

Irena Sandler nunca se considerou uma heroína.

“Continuo com a consciência pesada por ter feito tão pouco”, declarou.
Por valorizar a vida, Irena Sendler foi presa em sua casa em 20 de outubro de 1943. Durante o período em que ficou detida no quartel-general de Gestapo, foi torturada pelos nazistas que quebraram seus pés e pernas. Ainda assim, ela não deu informações. Logo depois, foi condenada à morte, mas milagrosamente foi salva quando a conduziam à execução por um oficial alemão que a resistência polonesa conseguiu corromper.
Sendler continuou sua luta clandestina sob uma nova identidade até o final da guerra, trabalhando como supervisora de orfanatos e asilos em seu país. Quanto aos valores deixarei que essa mulher que optou escolher pela vida, pela bênção, Irena Sendler, mencione as breves e suficientes palavras que o fotógrafo, bem como a multidão de pessoas que pensam como ele, deveriam atentar para entender onde está a raiz do problema:

“A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade”


Cultura da mentira

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MentiraHá alguns meses, incentivado pelas insistências de minha esposa, decidi trocar meu aparelho de telefone celular. Das infinitas gadgets tecnológicas disponíveis atualmente, o celular sempre foi a que menos me seduziu, de modo que as tentações para substituir aparelhos antigos por outros novos nunca me foram muito persuasivas.

Por conta disso, o novo aparelho trazia uma série de novidades em relação ao outro, bem mais antigo. De todas essas novidades, a que mais despertou minha curiosidade foi uma tal de “chamada falsa”.
Não é de hoje que o telefone celular tem funcionado como válvula de escape para situações constrangedoras do dia-a-dia: uma conversa chata, uma reunião que só pode se evitada por uma razão muito honrosa, ou mesmo para passar uma falsa impressão de influência social, dentre outras. Mas não posso negar que cheguei a ficar surpreso ao ver que a indústria não só reconheceu a prática, como oficializou a legitimidade dela, ao oferecer tamanha comodidade para seu exercício. A sofisticação do recurso é tal que é possível até mesmo gravar uma falsa conversa, para que a chamada soe mais “verdadeira”. Não é sensacional? A tecnologia a serviço do “bem-estar” da humanidade.

Isso me levou a pensar no quanto nossa sociedade se tornou hipócrita. A mentira não é mais simplesmente aceita, mas é esperada, ela se tornou uma prática institucionalizada na nossa sociedade e uma ferramenta legítima na forma de se conduzir os relacionamentos interpessoais.

Mas será que isso tudo é suficiente para reconhecer a mentira como um modo de vida viável? A cultura cristã contrapõe a mentira à própria natureza de Deus, negando a possibilidade de alguém se realizar plenamente numa existência de mentiras. Mas não se trata de uma questão meramente cultural. O tema é tão recorrente, que até o ateu Sam Harris — que não se pode dizer motivado por questões de moralidade religiosa — se dispôs a escrever, sob sua ótica naturalista, um ensaio sobre os benefícios de se deixar de lado a mentira.

A verdade é que a mentira não enobrece nenhuma conduta humana. Ao contrário. Como alguém já observou, ela está sempre associada a outras práticas recriminadas pela sociedade, como adultérios, roubos, fraudes, conveniências, abusos e explorações. Não há como a mentira ser enobrecedora levando-se em conta os interesses por detrás de suas consequências últimas.

Mesmo assim, alguns argumentos têm aparecido para justificar a prática da mentira. Um dos mais usados é aquele que atribui a ela uma espécie de função “terapêutica”, fundamental para a boa fluidez das relações humanas. Mentir seria necessário para aliviar a dor da verdade que muitos não suportariam. Na variação deste argumento, a mentira seria seria um mal menor, autorizado para evitar um mal maior.

O que não apareceu ainda é quem fique contente em ser enganado por mentiras.