[1]
– Adoro ter opiniões.
[2]
– Mas não opiniões embasadas.
[3]
– Dá tanto trabalho ficar informado que isto anula toda a vantagem inicial de se ter uma opinião.
[4]
– Qual exatamente você acha que é a vantagem de ter uma opinião?
[5]
– A vantagem é que eu me sinto bem.
[6]
– Isso é locura total.
– Será?
[7]
– A menos que tenha dados para sustentar seu comentário, ele nada mais é do que opinião sem base para você se sentir bem.
[8]
– AHHH! Você está começando a fazer sentido!
– Sua vida toda é uma mentira.
Entre críticas e elogios, a abertura dos jogos olímpicos de Londres acabou passando, com bastante propriedade, a mensagem a que, acredito eu, se propôs. Não se trata, porém, de uma mensagem de assimilação imediata. Eu me dei conta plenamente dela ao assistir novamente a abertura, desta vez com meu filho ao meu lado. Em um dado momento do espetáculo ele me perguntou: “isso está acontecendo agora?”, e esta indagação desencadeou o processo todo. Tive que apressar um pouco o passo para alcançar o raciocíono dele e entender o que de fato desejava saber.
Não foi fácil explicar que a rainha era de real realeza, mas que o homem que a acompanhava no helicóptero era um ator. Que eles realmente entraram no helicóptero, mas que eles não estavam lá e aquilo tudo era um filme. Que alguém de fato saltou de paraquedas, e isso não era mais um filme, mas que não foi a rainha que saltou, embora fosse mesmo ela ao, finalmente, tomar lugar no estádio e receber os cumprimentos, numa sincronia de ação sem dúvida cinematográfica.
Nossos pais e avós aprenderam que as coisas podiam ser ao vivo ou não, à medida que o videotape se popularizava. Nós, da nossa parte, tentamos entender as mudanças na experiência de comunicação classificando o mundo como real ou virtual. As gerações mais novas, talvez por terem nascido imersas nesta nova realidade, parecem perceber com mais facilidade como todos estes conceitos são obsoletos. Foi isso que compreendi com a pergunta de meu filho de sete anos e que também é a mensagem do espetáculo apresentado: O real e o virtual acontecem juntos e tudo é ao vivo quando o que conta é a experiência vivenciada, mesmo que editada, produzida, simulada.
O que vimos na apresentação foi uma narrativa de como, a partir de uma sociedade bucólica e agrícola, avançamos rapidamente puxados pela locomotiva do progresso industrial até chegarmos na atual era da informação total, na qual a comunicação condiciona todas as relações interpessoais, juntando ininterruptamente o que ainda — mas por pouco tempo — denominamos real ou virtual, onde realidade é fantasia e fantasia é realidade.
Não se trata nem de limites difusos, mas de total mistura sem emendas. A paródia do humorista é tão verdadeira quanto a peça original. O perfil de alguém numa rede social qualquer é tão alguém quanto o alguém real. É assim que acontece o espetáculo. E é assim que acontece a vida. Não pode também faltar o elemento lúdico, por isso é que até mesmo a autoridade máxima presente deve de dar sua contribuição na história a ser contada para todos nós, para que como crianças, embalemos no sono que nos permitirá continuar sonhando.
Não foi à toa que um cineasta foi chamado para produzir o evento. E não foi à toa que a personalidade homenageada em destaque foi Tim Berners Lee, criador da World Wide Web, o meio que possibilitou a expansão e a popularização de toda essa fantasia interativa. Até os discutíveis mascotes dos jogos sugerem que estão lá para lembrar, a quem se atrever esquecer, de que tudo é atentamente observado e filtrado pelo o olhar monocular e pouco humano da mídia. O reality show nunca mais vai sair do ar.
A mais nova tentativa de controle governamental sobre a opinião pública desta vez diz respeito à televisão.
Este mesmo governo que já tentou cercear a imprensa, que faz vista grossa a conteúdo ideológico em livros escolares e que ainda não desistiu de promover a sexualização infantil precoce sob o rótulo de ‘tolerância’, agora pretende proibir que as emissoras de TV repassem espaço em sua grade de programação a terceiros, o chamado “aluguel de horário”.
Se já não bastasse a excessiva e, em tempos digitais, cada vez mais questionável centralização do controle de distribuição das concessões de radiodifusão por parte do poder público, que ao longo da história deste país transformou tais concessões em moeda política, o governo agora mostra-se insatisfeito com a falta de controle sobre aquilo que é veiculado pelas emissoras de TV e deseja instituir um novo “marco regulatório” das comunicações, sob o pretexto, correto, de que o atual, de 1962 está obsoleto.
Eu me pergunto o que, na televisão, deve ser definido como “aluguel de horário”? À parte o tempo de veiculação, o nome que se dá à inserção e a forma de contrato entre as partes, qual a diferença entre um comercial de 30 segundos e um programa de vendas de meia hora? Ambos estão, alugando o espaço da emissora para vender. O governo proibiria também os comerciais, ou os deixaria de fora com base em alguma cláusula de tempo mínimo, formato ou natureza da informação veiculada? Como fazer isso sem exercer algum tipo de arbitrariedade?
De qualquer modo, dois grupos de destacariam de imediato dentre os mais afetados caso a medida entre em vigor: os programas de televendas e os evangélicos, este último sem dúvida em uma escala muito maior. Não é de se espantar, portanto, que representantes deste segmento tenham encarado a proposta como um ataque especificamente dirigido e já tenham se apressado em protestar recriminando a possibilidade desta mudança vir a acontecer.
Do lado oposto, dois argumentos principais parecem embasar os favoráveis à medida: a qualidade dos programas da televisão brasileira e o excesso de espaço que os programas evangélicos adquiriram nos últimos anos.
Quanto ao primeiro argumento, é fácil observar que a qualidade dos programas nada tem a ver com o tipo de pessoa que o produz ou com quem paga pelo horário em que é veiculado. A lista dos programas de qualidade duvidosa produzido pelas próprias emissoras é interminável e nada nesta medida de controle nos permite acreditar que o lixo televisivo venha a ser suprimido com essa medida. Pelo contrário, as emissoras seriam forçadas a preencher a grade vazia com mais programas sem muitas vezes terem condições de investir, o que não impediria programas de produção e qualidade duvidosos.
O outro argumento, mais imediatista e superficial ainda, é da crítica aos programas evangélicos. Neste caso – sem entrarmos no mérito do conteúdo destes programas – o discurso se baseia na repressão ideológica descarada contra o conteúdo que é oferecido por eles. Se há abusos, exageros ou enganos promovidos por estes programas, deveriam ser resolvidos pela legislação vigente no país, preservando-se sempre o princípio constitucional da liberdade de expressão. Fora isso, no que diz respeito a conteúdo, porém, o que neste caso os defensores deste argumento estão defendendo não seria nada diferente de querer proibir uma loja de vender um disco ruim. Como não se pode impedir alguém de gravar um disco ruim e como não se pode estabelecer judicialmente que um disco é ruim, visto que a definição envolve subjetividade, que se proíba a loja de vendê-lo.
As pessoas que celebram a possibilidade desta medida se concretizar, motivadas por suas aversões pessoais contra evangélicos, contra o lixo da TV ou mesmo contra o excesso de programas de televendas, deveriam deixar um pouco de lado a efusividade imediatista proporcionada pelo momento e tentar ampliar o campo de visão sobre o que isto pode representar a médio e longo prazo, pois o que se pode ter certeza de tudo isso é que, cercear um pouco mais a veiculação de programas de produção independente, é dar ao governo maior controle sobre aquilo que é distribuido pelos canais de comunicação e chega à casa das pessoas. Em outras palavras, à medida que toma para si, o governo está tirando do público o direito de escolher aquilo que irá assistir em suas tevês.


