Reparação

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David BryantImagine alguém ser solto de uma prisão após 38 anos. Para nossos padrões atuais é, no mínimo, metade de uma vida. Depois de quase 40 anos atrás das grades, acusado pelo estupro e assassinato de uma menina em 1975, David Bryant foi finalmente libertado da prisão nesta semana.

Seu caso foi reaberto após a solicitação da Centurion Ministries, uma agência que tem por objetivo dar apoio a pessoas condenadas injustamente. O pedido da Centurion foi acatado, as evidências da época foram reexaminadas sob as novas tecnologias de análise de DNA e consideradas pelo juiz que julgou o caso insuficientes para mantê-lo preso.

Bryant disse que gostaria de ir a uma igreja, e se ajoelhar em uma oração por seus pais, que nunca acreditaram nele. “Eu gostaria que eles estivessem aqui para que eu pudesse dizer a eles não fiz aquilo”, disse ele.

O caso de David Bryant está longe de ser exceção, como se pode ver no site da Centurion Ministries. Toda condenação injusta é lamentável, traumatizante, indesejável. Mas é ainda mais se for penalizada com um ato irreversível, como a morte.

Eu tenho duas objeções à pena de morte. Uma é que ela impede a possibilidade de um futuro arrependimento. Nem todo criminoso irá se arrepender, mas a pena de morte elimina de cara essa possibilidade. A outra objeção é justamente a que motiva casos como este, de David Bryant. A justiça humana é menos do que perfeita, portanto sempre estará sujeita a erros. Intencionais ou não.


Cotas para os feios

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feiuraUm professor da Universidade do Texas em Austin propôe políticas de inclusão para os feios.

O assunto é sério. Pessoas com “déficit” de aparência seriam preteridas por outras mais esteticamente privilegiadas, seja no trabalho, seja nas relações sociais. Segundo o artigo publicado no New York Times, um estudo aponta que durante a vida, um feio pode vir a ganhar até 230 mil dólares a menos do que um bonito, nas mesmas condições.

Toda essa diferença de tratamento entre os feios e os bonitos é baseada em puro preconceito, diz o artigo. As pessoas dão preferência a bonitos não por sua competência, mas por sua aparência, o que levaria a um encadeamento de consequências discriminatórias da qual toda a sociedade é responsável.
Um empresário, por exemplo, deixaria de contratar uma atendente “esteticamente prejudicada” em favor de uma mais privilegiada na aparência porque isto favoreceria as expectativas de seus próprios clientes.

Diante destas circunstâncias, segundo o autor, a discriminação aos feios se enquadraria perfeitamente nos mesmo quesitos de discriminação a outros grupos minoritários já privilegiados com políticas de inclusão. O autor afirma ainda que, a despeito da subjetividade do tema, é possível, sim, encontrar critérios objetivos para a aferição da feiura, possibilitando assim a identificação das pessoas qualificáveis para as políticas de inclusão.

Um exercício interessante seria o de imaginar algumas possíveis ações de inclusão motivadas pela nova política: “vagas para feios nas empresas”, “cotas para feios nas universidades”, talvez até algum “assento reservado para feios” nos ônibus e metrôs, afinal, os bonitos podem muito bem ser favorecidos quando se trata de alguém ceder o lugar. E como seria a avaliação dos candidatos? Haveria uma comissão julgadora, depoimento de testemunhas ou seria uma declaração de próprio punho?

Restaria saber da disposição das pessoas em se assumirem como feios ou, mais político-corretamente, “esteticamente prejudicadas”, mas não é nada que, na avaliação do autor, 230 mil dólares a mais na conta bancária não possam resolver.


Aborto de anencéfalos

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dandelion

Vamos ser práticos. A discussão toda se resume ao seguinte: se devemos ou não tornar possível que as mulheres frustradas com uma criança malformada em seu ventre eliminem essa criança de suas vidas sem que isso lhes acarrete algum incômodo social. Social, apenas, porque o que é moral para alguém jamais poderá ser estabelecido de forma judicial, embora a sugestão implícita seja a de que o que é legal também é moral.

O resto, meus caros, é conversa.

Assim, em função de se dar ao assunto uma aura mais nobre do que o simples e natural egoísmo permite, elabora-se todo um cenário onde uma discussão pouco lógica, mas muito rebuscada, travestida de preocupações humanísticas, começa a debater se uma criança sem cérebro está viva, ou não está viva, como se esta fosse a questão decisiva; ou sobre o valor utilitário da vida para a sociedade, como se a sociedade pudesse determinar desta forma o próprio valor da vida; ou se alguém fadado a morrer merece viver, ainda que por alguns instantes, como se a existência de qualquer pessoa fosse algo previsível.
Outro argumento recorrente é o de que para defender a vida como um fim em si mesmo seja preciso apelar para algum “dogma religioso”, como se qualquer descrente não pudesse chegar à mesma conclusão de que a vida tenha um valor em si mesma. O objetivo aí é o de tentar criar uma falsa dicotomia entre a fé e a razão, a religião e a ciência, tornando o valor intrínseco à vida uma questão discutível atrelada à subjetividade da fé de cada um e sem lastro na objetividade da ciência e da razão.

Mesmo sem passar pela mesma experiência, é perfeitamente possível compreender o drama para algumas mulheres e algumas famílias de ter que sustentar uma situação que não irá cumprir com as expectativas que deram origem a tal situação. Mas, nesse caso, os defensores da causa, deveriam simplesmente assumir que o que de fato está em discussão é meramente o fator do bem-estar individual, comprometido pelo não cumprimento da situação idealizada.

Para quem leu até aqui, vale dizer que a idéia não é condenar quem fez, ou pensa em fazer um aborto, seja de anencéfalo ou por outra razão qualquer, mas tentar levantar aquilo que é relevante e por uma série de razões fica obscurecido no discurso em torno do assunto.

Seria mais honesto se a questão fosse conduzida desta forma, em lugar de se tratar a sociedade simplesmente como um bando de gente sem cérebro. A transparência ao menos possibilitaria que cada um refletisse sobre seus reais motivos e interesses chamando para si a responsabilidade de seus atos e escolhas.