Informação “sob medida”

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Filtrocomentei aqui sobre o modo como a informação é filtrada pelos canais de informação da Web antes de ser distribuída para o usuário.

O livro “O filtro invisível”, de Eli Pariser, aborda um outro lado importante da distribuição seletiva da informação na Internet. Pariser analisa o procedimento usado pelos canais de distribuição da informação de selecionar o que será mostrado ou escondido de acordo com o perfil do usuário e dentro aquilo que, supostamente, será do interesses dele.

Para definir qual informação será oferecida, redes sociais, sites de busca, de notícias, de compras, dentre outros que distribuem a informação na rede, avaliam o comportamento do usuário, medindo suas interações com outras pessoas em suas redes sociais, suas opiniões, além de outros parâmetros pessoais, entregando para ele a informação que mais se assemelhe a deteminados padrões. Pariser critica, com razão, o modelo, demonstrando que os métodos usados privam arbitriamente o usuário de informações que poderiam ser do interesse dele.

Parser, observa que o procedimento chega a ser uma forma sutil de censura, à medida que esconde informações que estão lá, mas acabam não sendo percebidas, criando uma falsa impressão de concordância de opiniões ao ocultar opiniões e interesses divergentes do usuário alvo e destacando aquelas em que há semelhança.


A imagem dos jogos, o jogo das imagens

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Entre críticas e elogios, a abertura dos jogos olímpicos de Londres acabou passando, com bastante propriedade, a mensagem a que, acredito eu, se propôs. Não se trata, porém, de uma mensagem de assimilação imediata. Eu me dei conta plenamente dela ao assistir novamente a abertura, desta vez com meu filho ao meu lado. Em um dado momento do espetáculo ele me perguntou: “isso está acontecendo agora?”, e esta indagação desencadeou o processo todo. Tive que apressar um pouco o passo para alcançar o raciocíono dele e entender o que de fato desejava saber.

Não foi fácil explicar que a rainha era de real realeza, mas que o homem que a acompanhava no helicóptero era um ator. Que eles realmente entraram no helicóptero, mas que eles não estavam lá e aquilo tudo era um filme. Que alguém de fato saltou de paraquedas, e isso não era mais um filme, mas que não foi a rainha que saltou, embora fosse mesmo ela ao, finalmente, tomar lugar no estádio e receber os cumprimentos, numa sincronia de ação sem dúvida cinematográfica.

Nossos pais e avós aprenderam que as coisas podiam ser ao vivo ou não, à medida que o videotape se popularizava. Nós, da nossa parte, tentamos entender as mudanças na experiência de comunicação classificando o mundo como real ou virtual. As gerações mais novas, talvez por terem nascido imersas nesta nova realidade, parecem perceber com mais facilidade como todos estes conceitos são obsoletos. Foi isso que compreendi com a pergunta de meu filho de sete anos e que também é a mensagem do espetáculo apresentado: O real e o virtual acontecem juntos e tudo é ao vivo quando o que conta é a experiência vivenciada, mesmo que editada, produzida, simulada.

O que vimos na apresentação foi uma narrativa de como, a partir de uma sociedade bucólica e agrícola, avançamos rapidamente puxados pela locomotiva do progresso industrial até chegarmos na atual era da informação total, na qual a comunicação condiciona todas as relações interpessoais, juntando ininterruptamente o que ainda — mas por pouco tempo — denominamos real ou virtual, onde realidade é fantasia e fantasia é realidade.

Não se trata nem de limites difusos, mas de total mistura sem emendas. A paródia do humorista é tão verdadeira quanto a peça original. O perfil de alguém numa rede social qualquer é tão alguém quanto o alguém real. É assim que acontece o espetáculo. E é assim que acontece a vida. Não pode também faltar o elemento lúdico, por isso é que até mesmo a autoridade máxima presente deve de dar sua contribuição na história a ser contada para todos nós, para que como crianças, embalemos no sono que nos permitirá continuar sonhando.

Não foi à toa que um cineasta foi chamado para produzir o evento. E não foi à toa que a personalidade homenageada em destaque foi Tim Berners Lee, criador da World Wide Web, o meio que possibilitou a expansão e a popularização de toda essa fantasia interativa. Até os discutíveis mascotes dos jogos sugerem que estão lá para lembrar, a quem se atrever esquecer, de que tudo é atentamente observado e filtrado pelo o olhar monocular e pouco humano da mídia. O reality show nunca mais vai sair do ar.


Heróis e vilões

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volenciaBons tempos aqueles quando um herói injustiçado, ao final do filme, dava a volta por cima com um surpreendente golpe de mestre, superando seus adversários com inteligência e elegância. Os tempos agora são diferentes. O herói hoje se contenta em resolver suas pendências no braço. E o público, igualmente, se satisfaz com esse tipo de solução.

Alguns poucos anos atrás uma novela bateu recordes de audiência no capítulo em que uma vilã levava uma senhora surra da suposta heroína. Lembro-me bem do episódio. Eu, parado em um restaurante de estrada na noite em que a cena foi ao ar, quase que obrigado, pude testemunhar a atenção com que absolutamente todas as pessoas presentes no local fixavam os olhos nas duas TVs suspensas, onde a ‘brava’ protagonista literalmente arrebentava sua adversária com as próprias mãos.

De fato, esta é uma forma bem mais simples e cômoda de se oferecer uma vitória ao herói dentro da trama. A outra alternativa, que seria a da surpresa, estratégia e inteligência, precisaria de muito mais elaboração, exercício de neurônios e um risco bem maior de nem sempre ser compreendido, ou mesmo aceito, por um público que só quer assistir um pouco de TV sem ter que refletir muito sobre sutilezas morais ou narrativas.

Mas há ainda um nível ainda mais profundo de leitura possível que tal fato nos proporciona. Na verdade, não é de hoje que heróis e vilões deixaram de se distinguir uns dos outros. A mídia de entretenimento, há muito tempo já esfumaçou a linha que separava bonzinhos e malvados, honestos e safados, tentando convencer a todos que somos igualmente inconfiáveis e que valores como certo e errado são apenas faces diferentes de uma mesma moeda.

Já vai longe o tempo em que o herói era aquela que estendia a mão para o adversário derrotado, ou que se recusava a trair sua própria ética mesmo que em favor de uma causa justa. Hoje, ele só fará isso se houver um interesse ainda maior por trás, caso contrário não será chamado de herói, mas de trouxa.

Assim, para quê perder tempo elaborando demais o perfil dos heróis com valores de moral e justiça se uns sopapos resolvem tudo e satisfazem a todos? Afinal, heróis espelham os ideais da sociedade que os cria. E até a violência sumária, nem um pouco velada, é tolerada e justificada — da mesma forma, aliás, que qualquer desvio ético — desde que perpretada sobre quem estiver incomodando do lado “oposto da linha”.