Craig X Ateus

| Em Ciências, Crônica


William Lane Craig

Um interessante perfil do apologista cristão William Lane Craig, traçado pelo site ateísta ‘Common Sense Atheism’, bem como uma análise de seu desempenho em debates com ateus.

“William Lane Craig é um prolífico filósofo cristão, apologista, autor e público debatedor. Ele é o melhor debatedor – sobre qualquer tema – que eu já ouvi. Tanto quanto eu posso dizer, ele ganhou quase todos os seus debates.”

O conteúdo completo pode ser lido aqui (em inglês): Common Sense Atheism


Os valores e as escolhas

| Em Comportamento, Sociedade


Joubert de O. Sobrinho
Publicado no “Em Família 23″

Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência – Deuteronômio 30:19

Manchete do New York Post

Não consegui evitar um certo azedume nas entranhas após ler no jornal o artigo que comentava a escolha do fotógrafo profissional R. Umar Abassi. Ele preferiu gastar duas dezenas de segundos para fotografar um homem prestes a morrer nos trilhos do metrô de Nova York, ao invés de correr para tentar salvar sua vida. Foi uma escolha. Pior ainda: ele saiu da estação rapidamente para vender sua foto exclusiva ao jornal New York Post que, por sua vez, não fez por menos: publicou-a no dia seguinte na primeira página com o texto:

“Empurrado da plataforma do metro, este homem vai morrer”
“Condenado”

O fotógrafo informou às autoridades que usou o flash para alertar o condutor do vagão da presença do homem nos trilhos. Desde quando um flash em frente aos olhos facilita a visão? Alegar que o Código de Ética dos fotógrafos foi a razão do mesmo não ter agido em favor da salvação do coreano é bobagem. O código solicita que o fotografo evite interferir, influenciar ou alterar acontecimentos. Mas que acontecimentos? Mesmo quando a vida humana está em jogo? Por causa deste código muitos fotógrafos se esconderam por detrás das câmeras lavando as mãos feito Pilatos, enquanto poderiam tomar atitudes mais benignas. A mensagem que ele deixou foi clara: mais valem os milhares de dólares, a projeção de meu nome, um possível prêmio, que a vida de um cidadão qualquer. Ele escolheu a morte.

O valor da vida
Alegar esta regra antiética do código, contraria os princípios norteadores e responsáveis pela existência dos salva-vidas, dos bombeiros, dos policiais, dos médicos socorristas e agentes de saúde cuja prioridade é salvar vidas. Mas, o fotógrafo é “neutro”?!? Nem no mundo fantasioso dos quadrinhos há dúvida. Peter Parker, o Homem-Aranha, é fotógrafo, mas (analisando a natureza das histórias até aqui) seus sentidos-aranha indicam que mais vale salvar uma vida que fotografar sua morte!

O que está em jogo numa decisão como esta são os valores. Definindo com simplicidade, quando reconhecemos um valor nas coisas, inclinamo-nos a ter uma atitude favorável para com elas que se reflete nos nossos atos e escolhas. Se não valorizamos a vida nossas escolhas não darão prioridade a ela. O fotógrafo declaradamente agiu valorizando seu trabalho, sua profissão, seu ganho, ou seja lá o que for, mas não priorizou salvar a vida.
Expor a vida para salvar vidas

Em contrapartida, apresento-lhes uma grande heroína polonesa da Segunda Guerra Mundial que salvou 2.500 crianças judias do gueto de Varsóvia, falecida em 2008. Em março de 2007 a Polônia lhe prestou uma homenagem solene e seu nome foi proposto ao prêmio Nobel da Paz (ano em que escolheram Al Gore). No entanto, o memorial israelense do Holocausto, o Yad Vashem, lhe entregou em 1965 o título de Justo entre Nações, destinado aos não-judeus que salvaram judeus.

Irena Sandler

Irena Sandler nunca se considerou uma heroína.

“Continuo com a consciência pesada por ter feito tão pouco”, declarou.
Por valorizar a vida, Irena Sendler foi presa em sua casa em 20 de outubro de 1943. Durante o período em que ficou detida no quartel-general de Gestapo, foi torturada pelos nazistas que quebraram seus pés e pernas. Ainda assim, ela não deu informações. Logo depois, foi condenada à morte, mas milagrosamente foi salva quando a conduziam à execução por um oficial alemão que a resistência polonesa conseguiu corromper.
Sendler continuou sua luta clandestina sob uma nova identidade até o final da guerra, trabalhando como supervisora de orfanatos e asilos em seu país. Quanto aos valores deixarei que essa mulher que optou escolher pela vida, pela bênção, Irena Sendler, mencione as breves e suficientes palavras que o fotógrafo, bem como a multidão de pessoas que pensam como ele, deveriam atentar para entender onde está a raiz do problema:

“A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade”


Bell’s Hells

| Em Cristianismo


brasa, calor e pouca luzRob Bell, um pregador americano que se tornou famoso em tempos recentes, virou assunto agora também no Brasil, ao ser entrevistado por André Petry nas páginas amarelas da Veja desta semana  (Edição de 28/11/2012), para divulgação de seu novo livro. O assunto que ele traz diz respeito ao universo da teologia cristã, mas que com um veículo de forte penetração, como é a Veja, passa a ter uma enorme visibilidade para ao público em geral. Sendo assim, algumas considerações são cabíveis e merecidas.

Bell, defende a idéia do Universalismo, a doutrina de que todos serão salvos no fim das contas e que não há um “inferno” no sentido tradicional da concepção cristã. Para isso, ele se escora nas falhas da igreja – que sabemos há 2 mil anos que existem e são muitas – em especial as falhas relacionadas à compaixão, para argumentar que há muita gente “boa”, mundo afora tão ou mais merecedora de ser salva do que muito cristão dentro das igrejas. Como resolver a questão, senão pela noção de que todo mundo (ou quase todo mundo, como veremos) será salvo no final?

A entrevista inicia com uma afirmação, destacada na legenda da foto de abertura, que já sugere o tom ambíguo, genérico e de indiscreto apelo sentimental do restante que está por vir. Bell afirma em tom de resignação: “Ninguém sabe o que acontece quando morremos. Não tem fotografia, não tem vídeo”.
Em termos. É verdade que não conhecemos detalhes do porvir, da vida eterna anunciada nas escrituras, porém, se Rob Bell deixar de lado as fotografias e vídeos como referencial de confiabilidade e se pautar simplesmente na Bíblia, é possível sim, a um cristão, ter uma noção suficientemente clara de que dois destinos possíveis são apontados para o homem: um junto a Deus e outro não (Ver Mateus cap. 25 e outras passagens).

Rob Bell sugere que o único inferno digno de ser discutido é aquele que cabe em sua própria definição, ou seja, a falta de alimento ou água e sofrimentos desta ordem. Para ele, de alguma forma, a existência deste inferno terreno, pelo qual sem dúvidas muitas pessoas passam, demonstra a inexistência de um inferno pós-morte. Ele afirma que, não por acaso, as pessoas que se preocupam demais com discussões sobre o inferno depois da morte são as que menos se interessam em discutir este inferno sobre a terra. Não sei se o livro chega a comprovar esta afirmação, mas na entrevista, ele fica muito longe disto.

Para Bell, qualquer pessoa que “tenha um coração”, só pode chegar a uma única conclusão moralmente cristã: a de que a salvação universal é “a melhor saída”. A sugestão é de que se alguém pensa diferente, só pode ser alguém desumano, insensível, egoísta.
Há um equívoco claro neste raciocínio apresentado por Bell. O fato de alguém desejar a salvação universal de toda a humanidade pode até ser o ideal acalentado por muitos ou mesmo todos os cristãos, como de fato eu acredito que seja, porém isso não determina que a realidade seja esta, de que todos irão se salvar no final. Também não significa que esta seja a única lógica possível de se conciliar com um “Deus que ama a todos”.

Apesar de defender a salvação universal, Bell não consegue livrar seu discurso da ambiguidade, por mais que consideremos que numa entrevista desse tipo os assuntos saiam truncados e misturados. Ao responder à pergunta sobre se alguém poderia recusar o paraíso, Bell responde que “você é livre para amar e para não amar”. Ele acha — ‘acha’ — que neste caso, talvez, a pessoa fique em um estado de “rejeição ou resistência que alguns chamam de inferno”.
Rob Bell não tem coragem de levar sua tese Universalista às últimas consequências. Quando, no final da entrevista, é perguntado se Hitler estaria no céu, Bell supôe que, neste caso, “Deus lhe deu o que ele queria”. Dizer que Hitler estaria no céu é uma afirmação muito forte, e que traz possíveis danos colaterais a qualquer um que tente fazê-la. Afinal, nem todos estão preparados para estar ao lado de Hitler no céu, e nem todos gostariam de ser salvos por um Deus que também salvasse Hitler.

Tudo bem, até o amor de Deus tem limites. Então vamos lá. Temos dessa forma, ao menos um exemplo em que o Universalismo de Bell não se aplica, em uma clara contradição do seu discurso. Mas, se Deus deu a Hitler “o que ele queria”, por que não poderá dar aos demais mortais, igualmente, aquilo “que eles querem”?
Se alguém recusar deliberadamente a cosmovisão que coloca Deus como um criador, soberano, justo, se tiver rejeitado toda noção que seja de uma necessidade de salvação do homem por Deus, tendo preferido viver de acordo com suas convicções e maldades, mesmo que numa escala muito menor do que a de Hitler, dar a essa pessoa um destino perto do Deus a quem rejeitou por toda a vida não seria um gesto de imposição por parte desse Deus?

Enfim, o assunto é extenso e muito poderia ser dito sobre o porquê do Universalismo ser inconsistente com a própria noção de amor e justiça relacionada ao Deus dos cristãos, longe de ser “a melhor saída”, mas isso já se distanciaria da proposta deste texto.

Em uma coisa, porém, concordo com Rob Bell. É quando ele diz que “o Cristianismo passa por uma revolução”. Só não sei se é para melhor.