Cotas para os feios

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feiuraUm professor da Universidade do Texas em Austin propôe políticas de inclusão para os feios.

O assunto é sério. Pessoas com “déficit” de aparência seriam preteridas por outras mais esteticamente privilegiadas, seja no trabalho, seja nas relações sociais. Segundo o artigo publicado no New York Times, um estudo aponta que durante a vida, um feio pode vir a ganhar até 230 mil dólares a menos do que um bonito, nas mesmas condições.

Toda essa diferença de tratamento entre os feios e os bonitos é baseada em puro preconceito, diz o artigo. As pessoas dão preferência a bonitos não por sua competência, mas por sua aparência, o que levaria a um encadeamento de consequências discriminatórias da qual toda a sociedade é responsável.
Um empresário, por exemplo, deixaria de contratar uma atendente “esteticamente prejudicada” em favor de uma mais privilegiada na aparência porque isto favoreceria as expectativas de seus próprios clientes.

Diante destas circunstâncias, segundo o autor, a discriminação aos feios se enquadraria perfeitamente nos mesmo quesitos de discriminação a outros grupos minoritários já privilegiados com políticas de inclusão. O autor afirma ainda que, a despeito da subjetividade do tema, é possível, sim, encontrar critérios objetivos para a aferição da feiura, possibilitando assim a identificação das pessoas qualificáveis para as políticas de inclusão.

Um exercício interessante seria o de imaginar algumas possíveis ações de inclusão motivadas pela nova política: “vagas para feios nas empresas”, “cotas para feios nas universidades”, talvez até algum “assento reservado para feios” nos ônibus e metrôs, afinal, os bonitos podem muito bem ser favorecidos quando se trata de alguém ceder o lugar. E como seria a avaliação dos candidatos? Haveria uma comissão julgadora, depoimento de testemunhas ou seria uma declaração de próprio punho?

Restaria saber da disposição das pessoas em se assumirem como feios ou, mais político-corretamente, “esteticamente prejudicadas”, mas não é nada que, na avaliação do autor, 230 mil dólares a mais na conta bancária não possam resolver.


A imagem dos jogos, o jogo das imagens

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Entre críticas e elogios, a abertura dos jogos olímpicos de Londres acabou passando, com bastante propriedade, a mensagem a que, acredito eu, se propôs. Não se trata, porém, de uma mensagem de assimilação imediata. Eu me dei conta plenamente dela ao assistir novamente a abertura, desta vez com meu filho ao meu lado. Em um dado momento do espetáculo ele me perguntou: “isso está acontecendo agora?”, e esta indagação desencadeou o processo todo. Tive que apressar um pouco o passo para alcançar o raciocíono dele e entender o que de fato desejava saber.

Não foi fácil explicar que a rainha era de real realeza, mas que o homem que a acompanhava no helicóptero era um ator. Que eles realmente entraram no helicóptero, mas que eles não estavam lá e aquilo tudo era um filme. Que alguém de fato saltou de paraquedas, e isso não era mais um filme, mas que não foi a rainha que saltou, embora fosse mesmo ela ao, finalmente, tomar lugar no estádio e receber os cumprimentos, numa sincronia de ação sem dúvida cinematográfica.

Nossos pais e avós aprenderam que as coisas podiam ser ao vivo ou não, à medida que o videotape se popularizava. Nós, da nossa parte, tentamos entender as mudanças na experiência de comunicação classificando o mundo como real ou virtual. As gerações mais novas, talvez por terem nascido imersas nesta nova realidade, parecem perceber com mais facilidade como todos estes conceitos são obsoletos. Foi isso que compreendi com a pergunta de meu filho de sete anos e que também é a mensagem do espetáculo apresentado: O real e o virtual acontecem juntos e tudo é ao vivo quando o que conta é a experiência vivenciada, mesmo que editada, produzida, simulada.

O que vimos na apresentação foi uma narrativa de como, a partir de uma sociedade bucólica e agrícola, avançamos rapidamente puxados pela locomotiva do progresso industrial até chegarmos na atual era da informação total, na qual a comunicação condiciona todas as relações interpessoais, juntando ininterruptamente o que ainda — mas por pouco tempo — denominamos real ou virtual, onde realidade é fantasia e fantasia é realidade.

Não se trata nem de limites difusos, mas de total mistura sem emendas. A paródia do humorista é tão verdadeira quanto a peça original. O perfil de alguém numa rede social qualquer é tão alguém quanto o alguém real. É assim que acontece o espetáculo. E é assim que acontece a vida. Não pode também faltar o elemento lúdico, por isso é que até mesmo a autoridade máxima presente deve de dar sua contribuição na história a ser contada para todos nós, para que como crianças, embalemos no sono que nos permitirá continuar sonhando.

Não foi à toa que um cineasta foi chamado para produzir o evento. E não foi à toa que a personalidade homenageada em destaque foi Tim Berners Lee, criador da World Wide Web, o meio que possibilitou a expansão e a popularização de toda essa fantasia interativa. Até os discutíveis mascotes dos jogos sugerem que estão lá para lembrar, a quem se atrever esquecer, de que tudo é atentamente observado e filtrado pelo o olhar monocular e pouco humano da mídia. O reality show nunca mais vai sair do ar.


Estereótipo

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