Jesus, garoto propaganda

manequimJesus – seja para quem diz que o adora, que o segue, seja para quem diz apenas que o admira – ao que parece realmente é “o cara”, o exemplo, o modelo, o referencial. Isso faz com que as pessoas gostem de colocar palavras em sua boca e usá-lo como avalista das mais variadas causas que aparecem por aí.

Dessa forma, vemos pessoas elaborando roteiros, idealizando historietas para apoiar o meio ambiente, as crianças abandonadas, os homossexuais, os sem-tetos, os religiosos de todos os tipos e, mais ainda, os não religiosos de todos os tipos. No final, Jesus é chamado a participar do roteiro para “recitar o slogan da campanha”, endossando aquela causa ou idéia como se a elaboração toda de fato tivesse saído da boca dele.

O problema deste expediente é que quando se analisa honestamente o que Jesus costumava falar para as pessoas que o assediavam, o que se nota é que suas palavras, via de regra, desconcertavam seus interlocutores. Jesus não falava o que desejavam ouvir, nem tinha o hábito de prestigiar o senso comum vigente. E temos vários exemplos dando mostra de que isso não ocorria só com os fariseus e hipócritas da época como se gosta de acreditar.

A mulher siro-fenícia, ao se aproximar de Jesus teve que, antes de ser atendida, ouvir algumas colocações que fariam alguns sensíveis ouvidos politicamente-corretos de hoje imediatamente virar as costas indignados com a “falta de sensibilidade de Jesus”, interpretando suas palavras como discriminatórias, até mesmo esnobes ou racistas (Marcos 7.26).
O jovem rico, se aproximou de Jesus confiantemente, certo de que estava fazendo tudo conforme os protocolos exigidos na ocasião, o que significava observar a lei rigorosamente. Jesus propôs a ele um desafio pessoal que estava além das expectativas sociais daquele contexto: vender tudo. A lei, por si mesma, nem obrigava alguém a vender tudo. (Lucas 18.18)

Esse tipo de situação ocorreu inclusive com os discípulos, as pessoas que conviveram mais próximo de Jesus nesta terra e que teoricamente eram as que mais o conheciam.

Quando Jesus disse que teria que ser levado e morto, Pedro, com sincera compaixão se adiantou para dizer que não deixaria que algo tão cruel acontecesse. Pedro tinha acabado de dar uma bola dentro histórica, reconhecendo Jesus como filho do Deus vivo, mesmo assim, Jesus repreendeu a ignorância do discípulo, e ainda o chamou de satanás. Quantos suportariam ouvir isso de alguém a quem se admira? (Mateus 16.22)

Em outro episódio, alguns discípulos, bem ao estilo “humanista” dos tempos atuais, acharam que ficariam bem na foto se propusesse a Jesus que em lugar de deixar que “desperdiçassem” perfume caro aos pés dele, vendessem o produto e usasse o dinheiro para fazer caridade. Jesus, ali, derrubou a mesa do senso comum. (Mateus 26.9)

Os exemplos nos evangelhos são muitos e merecem ser conferidos nas escrituras. É claro que Jesus falava o que falava porque ele de fato conhecia cada pessoa e sabia até onde deveria ir com cada um. Mas ele também sabia o que havia no íntimo deles, atrás da casca das aparências, do egoísmo das boas ações e das fraquezas morais ocultas por baixo da superfície.

Esta lição nos ensina que realmente não é bom negócio tentar colocar palavras na boca de Jesus, pressupondo que ele diria isso ou aquilo em determinada situação, porque isso simplesmente reflete as nossas expectativas pessoais em relação a Deus e que normalmente são muito mais limitadas, tendenciosas e egoístas do que aquelas que realmente Jesus veio propor.
Em lugar de usar Jesus como garoto propaganda de nossas agendas pessoais, seria bom tentarmos conhecer melhor o que realmente ele disse e a partir daí, pautarmos nossas opiniões e escolhas.

Hamilton Furtado

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