A última ceia em Paris

A repercussão negativa da abertura dos Jogos Olímpicos, com acusações de desrespeito à fé cristã escalou rapidamente, ganhando o mundo, com uma avalanche de críticas partindo de todos os lados, desde instituições e personalidades cristãs católicas e evangélicas e pessoas de outras crenças até organizações seculares, patrocinadores retirando seu apoio e ameaças de boicote.

"A Festa dos deuses", Giovanni Bellini e Tiziano, 1514-1519
Domínio Público

Diante disso, mais ou menos um dia após o evento, começou a subir nos meios de comunicação a justificativa de que, na verdade aquilo tudo não tinha nada a ver com a “última ceia”, afinal de contas, mas sim com a “festa dos deuses”, ao mesmo tempo que a organização tentava se desculpar dizendo que sentia muito se alguém havia ficado ofendido e muita gente até então calada aproveitava a oportunidade para rotular os indignados de “conservadores ignorantes” e coisas do tipo. Mas nenhuma das duas medidas porém parece ter convencido boa parte do público. E há algumas boas razões para isso.

A questão é que estamos falando aqui de duas representações artísticas. Tanto “A Última Ceia”, quando “A Festa dos Deuses”, remetem à reprodução de pinturas feitas há cerca de 500 anos. Aí é que está o problema.

Quando falamos da Última Ceia, estamos falando da famosa pintura de Leonardo da Vinci, concluída em 1498. Ela representa, como todos sabemos, uma visão da última ceia de Jesus e seus discípulos, elaborada a partir da visão estética do seu tempo e obedecendo critérios formais de geometria, simetria e perspectiva do Renascimento.

Já “festa dos deuses” é um tema que inspirou obras de diversos artistas ao longo de muitos anos, tais como Giovanni Bellini, Hendrik van Balem, Gerard Segher, Frans Francken. A ideia geral, com pequenas variações, gira sempre em torno de uma das muitas celebrações dos deuses mitológicos da Grécia antiga comemorando algum evento grandioso, com muita comida e bebida, podendo ou não haver uma mesa em destaque, variando de tamanho. Claro, uma festa de deuses olímpicos estaria muito mais de acordo com jogos Olímpicos do que uma cena bíblica, então por que a confusão?

Acontece que de todas as representações da “Festa dos deuses”, aquela alegadamente usada como referência para a abertura dos jogos foi a do pintor holandês Jan Harmensz van Biljert, de 1615. A obra do holandês é a que, de todas as representações da “Festa dos deuses”, talvez seja a que mais se assemelhe à “Última Ceia” de Da Vinci. A maioria das obras sobre o tema mostra um aglomerado de pessoas, sem nenhuma semelhança formal com a obras de Leonardo. A de Hendrik van Balem, mostra pessoas à frente da mesa, em vários planos, num aglomerado desordenado, quase ocultando completamente o móvel. A versão de Giovanni Bellini, de 1615, uma das mais conhecidas, sequer possui uma mesa. Em outra obra a mesa aparece “de quina” em relação ao observador. Apenas a obra de Jan Harmensz van Biljert se aproxima em termos de composição da “Ùltima Ceia” de Leonardo, considerando aí a posição da mesa, a centralidade da figura principal e a distribuição mais um menos iguais dos demais componentes dos dois lados, numa bem provável influência direta da obra de Da Vinci sobre o holandês.

Agora a ironia da história. A representação mostrada no evento parisiense é de longe muito mais parecida com a composição de Leonardo da Vinci do que a própria obra de van Biljert! Note a disposição da mesa, a simetria dos componentes, com a figura central em destaque! Isso tudo é apenas sugerido na obra do holandês!

Concluindo e resumindo, se a apresentação se referia à “festa dos deuses”, qualquer outra composição poderia ter sido usada em lugar da de van Biljert, distanciando o visual da “Última Ceia” evitando qualquer mal-entendido. Com isso, provavelmente não teria havido lugar para essa justificada suspeita e tampouco a necessidade de suspeitas justificativas.

Hamilton Furtado

Foto: A Festa dos deuses, Giovanni Bellini e Tiziano, 1514-1519
Domínio Público

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